A MALDIÇÃO DA MEIO NOITE EM ENVIRA
Na pequena e pacata cidade de Envira, o Halloween sempre fora uma celebração alegre. Crianças corriam pelas ruas de paralelepípedos, vestidas de fantasmas, bruxas e monstros, enquanto coletavam doces em sacolas coloridas. Risos ecoavam pelas esquinas e as luzes das casas permaneciam acesas até tarde. Porém, naquela noite em especial, uma presença sombria pairava no ar, algo que os moradores sentiam sem saber explicar.
O relógio da igreja, imponente no centro da cidade, marcava 23h55 quando um vento gelado cortou a noite abafada. As risadas começaram a diminuir à medida que o céu estrelado foi encoberto por nuvens pesadas e escuras. Os mais sensíveis sentiam seus pelos se eriçarem, mas ninguém poderia prever o que estava por vir.
Quando os sinos soaram as doze badaladas, o som metálico reverberou com uma intensidade incomum, como se as ondas sonoras rasgassem a realidade. No meio da rua principal, uma figura começou a emergir. Não havia chegado andando, nem aparecido de forma súbita; era como se tivesse sido moldada pela escuridão. A criatura tinha dois metros de altura, olhos que brilhavam como carvões em brasa e dentes tão afiados que refletiam o parco brilho da lua.
Seu primeiro movimento foi um grunhido gutural que fez as janelas vibrarem. As pessoas, que antes se refugiavam no conforto de suas fantasias, agora gritavam, correndo em desespero. Doces foram abandonados pelo chão e máscaras caíram das mãos trêmulas. O monstro não poupava ninguém que encontrava no caminho. Não os atacava diretamente, mas sua simples presença provocava um terror tão profundo que alguns caíam de joelhos, incapazes de se mover.
A perseguição parecia interminável, mas ao mesmo tempo estranhamente metódica. A criatura movia-se sem pressa, mas nunca parecia perder de vista suas presas. Apenas quando o relógio marcava 1h30, a tensão foi quebrada. No centro da praça, sob o olhar das poucas almas que ainda não haviam se trancado em casa, o monstro parou.
Sua pele negra como piche começou a rachar, como se um fogo interno estivesse queimando-a de dentro para fora. Lentamente, aquela figura aterradora começou a se transformar. Os olhos incandescentes apagaram-se, os dentes retraíram-se, e o ser assumiu a forma de um homem comum. Ele vestia roupas simples, caminhava com tranquilidade e não parecia carregar o peso de sua forma anterior.
O silêncio na praça era absoluto. Ninguém ousava se aproximar ou dizer uma palavra. A criatura, agora homem, lançou um último olhar para os moradores apavorados antes de desaparecer pela estrada que levava à floresta.
Na manhã seguinte, os relatos de horror se espalharam pela cidade, mas ninguém sabia explicar a origem do ser. Quem era ele? O que buscava? E, acima de tudo, voltaria? Alguns acreditavam que era um espírito vingativo, outros sugeriam uma maldição ancestral.
Mas uma coisa era certa: a partir daquela noite, nenhum morador de Envira ousou permanecer na rua após a meia-noite. E todos se perguntavam, aterrorizados, quando o relógio soava à meia-noite: seria esta a noite em que ele voltaria?
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